Eu Quero Saber

Eis uma coletânea de textos desconexos e aleatórios, que podem ou não fazer sentido juntos. Histórias – não necessariamente as minhas – que preciso contar para, no fim, saber… Saber o quê? Ainda não descobri!

por André Pacheco

Os 300 paradoxos da promessa impossível

Publicado em 16/12/12

Ele lembra como se fosse ontem, ou anteontem, já que a noção de tempo tem se tornado um pouco confusa naquele excesso de cólera no peito. Não importa, só sabe que lembra.

Prometera aquele algo de junho pra si mesmo. Jurou aquele algo de junho pra si mesmo. Olhando confiante pros seus olhos, inchados e repletos de umidade, recitou, com os soluços contidos na garganta áspera de nicotina, os versos sobre o fim duma epopeia vazia e solitária. Da sua epopeia vazia e solitária. Deu-se um prazo. Uma data pro fim da guerra silenciosa travada dia após dia. E como um milagre de natal, o sol aparecera na sua janela perto da independência. Por pouco mais de 300 dias, ele tivera um teto, um afago, uma bússola emocional.

Mas, ironicamente, os fatos não foram como num conto de fadas. Vieram os dragões, com suas fúrias e suas chamas, destruindo o que vissem pela frente. Veio o jovial cavaleiro do reino anterior e depôs o rei enquanto rasgava com carinho a garganta do príncipe. Veio a fome, veio o medo, veio a dor, veio a peste. Por pouco mais de 300 dias, ele tivera a barganha da promessa. Sentiu-se como parte duma brincadeira dos deuses.

Ele lembra como se fosse ontem, pois de fato fora ontem, de refazer aquela promessa. Olhou-se no espelho após um longo e gélido banho, segurou o soluço na garganta seca de nicotina e recitou as palavras. Deu-se um novo prazo. Tinha pressa, sentia cada vez mais o peso do tempo, via a vida correr e não podendo compartilhar aquilo de mais puro e verdadeiro que havia dentro de si. Tinha medo dos gatos, do último suspiro na solidão, da peste que corroía suas veias. Também tinha medo que não pudesse nem ter novamente 300 dias consigo, quem sabe com o único.

Tivera tantos amores, mas poucas promessas. Tivera muitos sonhos, mas poucos fatos. Tivera muitos dias, mas poucos vividos com alegria. Cometeu erros, muitos. Por alguns, inclusive paga diariamente. Agora tem outros medos, mas aquele de sempre ainda está lá. Terminou a promessa, mas sem antes não pedir que os deuses dessa vez não façam uma brincadeira. Gostaria que fosse eterno, e não apenas enquanto dure. Que fosse cristalino, assim como o sentimento que sabe ter dentro de seu coração. Que fosse real, assim como aquele beijo do anjo que já quase experimentara.

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